Quando o homem tenta cantar a própria eternidade
A música que me marcou
Eu ouvi Roma Eterna apenas uma vez na vida, numa celebração solene — 50 anos de episcopado, com diversas autoridades eclesiásticas presentes, tradições, vestes e ritos.
E aquela melodia ficou gravada em mim.
A maioria das pessoas nunca ouviu essa música.
Por isso, vale apresentar o trecho principal de sua versão em português, frequentemente cantada em momentos de grande solenidade:
Ó Roma eterna, dos mártires, dos santos,
Ó Roma eterna, acolhe nossos cânticos.
Glória, louvor, ergue-se em tons vibrantes,
Ao vosso nome, à vossa majestade.Roma triunfa, eterna e soberana,
Roma que inspira e guarda a fé cristã.
Ergue-se aos céus nossa canção solene,
Roma eterna, Roma imortal!
Não importa a tradução exata.
O espírito é o mesmo: a exaltação da grandeza e da eternidade humana.
E foi isso que acendeu algo dentro de mim.
1. A tentação universal das instituições
Ao longo da vida, compreendi que aquilo que ouvi naquela celebração não era um fenômeno exclusivo da Igreja Católica.
Muito menos da cidade de Roma.
É um movimento humano.
Todas as instituições, cedo ou tarde, são seduzidas pelo mesmo impulso:
-
preservar o próprio nome,
-
proteger a própria estrutura,
-
perpetuar sua influência,
-
afirmar sua autoridade,
-
defender sua continuidade,
-
parecer eterna.
Isso acontece em:
-
igrejas católicas,
-
igrejas evangélicas,
-
movimentos reformados,
-
ministérios independentes,
-
denominações históricas,
-
megaigrejas modernas,
-
instituições religiosas ou políticas,
-
e até empresas.
O impulso é sempre o mesmo:
o homem quer permanecer.
Não apenas viver — permanecer.
2. Roma como símbolo, não como alvo
Quando Roma Eterna é cantada, o que ecoa não é apenas um hino — é um arquétipo.
Roma se torna símbolo daquilo que o ser humano sempre tenta construir:
- ordem,
- solidez,
- poder,
- tradição,
- permanência.
Mas por trás desse impulso existe um medo silencioso:
o medo de desaparecer.
Por isso a música diz: Roma eterna.
Por isso tantos sistemas religiosos dizem: nossa tradição é eterna.
Por isso tantas igrejas modernas dizem: nosso movimento é eterno.
E até empresas dizem: nossa marca é eterna.
Roma é apenas o espelho mais famoso.
Mas o reflexo é universal.
O problema não é Roma.
O problema é o coração humano.
3. Quando o sistema tenta imitar o Reino
Jesus nunca pediu para construirmos um império.
Pediu para carregarmos uma cruz.
Nunca nos chamou a erguer estruturas.
Chamou-nos a permitir que o Espírito erguesse pessoas.
Nunca nos deu uma liturgia eterna.
Deu-nos um caminho vivo.
Mas o homem faz o contrário:
-
substitui presença por cerimônia,
-
substitui Espírito por protocolo,
-
substitui vida por rito,
-
substitui Cristo por instituição,
-
substitui Reino por império.
E esse movimento não pertence a uma denominação específica —
pertence à natureza humana quando ela tenta preservar a si mesma.
4. O contraste inevitável
Quando ouvi Roma Eterna, percebi algo espiritual:
A canção exalta a permanência de uma cidade,
mas o Evangelho exalta a permanência do Espírito.
A música proclama:
“Nossa glória permanece.”
Mas Cristo proclama:
“Minha glória é dada, não construída.”
A música afirma:
“Roma é eterna.”
O Evangelho responde:
“Só o que nasce do Espírito permanece.”
E isso não é uma crítica à Igreja Católica —
é um chamado a todas as instituições, inclusive às evangélicas, que tantas vezes construíram seus próprios impérios, seus próprios símbolos, seus próprios “Reinos eternos”.
A tentação é a mesma.
A fragilidade é a mesma.
A natureza humana é a mesma.
5. A revelação que ficou em mim
Naquele dia, enquanto todos cantavam com sinceridade e solenidade, algo dentro de mim se iluminou:
Roma Eterna não é uma cidade.
É um desejo humano.
E esse desejo me alcança.
Alcança você.
Alcança qualquer pessoa que já buscou reconhecimento, autoridade, segurança, influência, estabilidade ou “permanência”.
Roma Eterna está:
-
em quem precisa ser aplaudido,
-
em quem constrói ministérios em torno do próprio nome,
-
em quem protege mais a instituição do que as pessoas,
-
em quem confunde tradição com verdade,
-
em quem teme desaparecer.
Roma começa dentro de nós.
6. A única eternidade verdadeira
A Bíblia diz:
“O mundo passa, bem como os seus desejos;
mas aquele que faz a vontade de Deus permanece para sempre.” (1 João 2:17)
Tudo o que é humano passa.
Tudo o que é institucional passa.
Tudo o que é visível passa.
Mas o que o Espírito gera —
isso permanece.
Roma cai.
Babilônia cai.
Jerusalém cai.
Denominações caem.
Sistemas caem.
Tradições caem.
Mas o Cristo vivo — Cristo em nós — esse não cai.
Esse é o Reino que não pode ser abalado.
A única eternidade que não depende da força humana, da estrutura humana nem da glória humana.
Conclusão
Aquela música, cantada com tanta solenidade, não foi para mim um ataque à fé —
foi um espelho.
Ela me lembrou que todo sistema humano, cedo ou tarde, tenta cantar que é eterno.
Mas o Evangelho me lembrou algo maior:
- Só o que nasce do Espírito permanece.
- Só o Reino invisível é eterno.
- E tudo o que é humano — até o que parece mais sólido — passa.
É por isso que Jesus disse:
“Busquem, em primeiro lugar, o Reino de Deus.”
Porque tudo o que não nasce desse Reino é Roma.
E Roma, por mais imponente que seja, não é eterna.
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