Amem... Amém!

Contra Toda Esperança

Contra toda esperança, Abraão creu. Uma reflexão sobre a fé, a Palavra, o Espírito e o descanso em Deus, mesmo quando nossos olhos não veem saída.

Airton Humber · 20 de outubro de 2026 · 8 min de leitura

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Luz da aurora iluminando um vale e um caminho, simbolizando a esperança e a fé mesmo diante do impossível.

A certeza do que não se vê

Poderão estes ossos tornar a viver?

Um homem é conduzido pelo Senhor a um vale cheio de ossos.

Havia muitos ossos, espalhados por toda parte. E estavam sequíssimos.

Não havia movimento. Não havia sinal de vida. Não havia, diante dos olhos, razão alguma para esperar que aqueles ossos voltassem a viver.

Então o Senhor pergunta:

“Filho do homem, estes ossos poderão tornar a viver?”

E o homem responde:

“Ó Soberano Senhor, só tu o sabes.”

O profeta não sabia como aqueles ossos poderiam viver. Mas também não afirmou que seria impossível.

Reconheceu que o Senhor sabia aquilo que ele não sabia.

Aquela visão foi dada a Ezequiel num momento de profunda desesperança. Mas sua imagem também nos convida a olhar para a humanidade e para nossa própria vida.

Quantas vezes nos encontramos diante de situações nas quais não conseguimos enxergar esperança alguma?

Quantas vezes procuramos uma saída usando todo o nosso conhecimento, nossa força e nossa capacidade, sem encontrar resposta?

A pergunta permanece:

Poderão estes ossos tornar a viver?

Talvez a resposta comece quando reconhecemos algo muito simples:

O homem procura a vida. Deus é a fonte da vida.


De onde vem a vida?

No vale dos ossos secos, o Senhor ordena que Ezequiel anuncie sua Palavra.

O profeta obedece.

Os ossos começam a se aproximar. Recebem tendões, carne e pele. Mas ainda não há vida neles.

Então o Senhor ordena que ele profetize ao espírito, para que venha e sopre sobre aqueles mortos.

E eles vivem.

Ezequiel anunciou a Palavra. Mas não foi sua capacidade que produziu a vida.

O homem participa. O Espírito vivifica.

E não é a primeira vez que encontramos essa relação nas Escrituras.

Já no princípio, o Espírito de Deus pairava sobre as águas.

Deus disse: “Haja luz.”

E houve luz.

Muito tempo depois, João começou seu evangelho anunciando:

“No princípio era a Palavra.”

E acrescentou:

“Nele estava a vida, e esta era a luz dos homens.”

Jesus também declarou:

“As palavras que eu lhes disse são espírito e vida.”

Palavra. Espírito. Vida. Luz.

Não são simplesmente quatro nomes para a mesma coisa. Mas estão profundamente relacionados naquilo que as Escrituras nos revelam.

A Palavra anuncia. O Espírito vivifica. A vida procede de Deus. E a luz ilumina os homens.

Aquilo que os ossos não podiam produzir, o Senhor lhes concedeu.

E foi nesse mesmo Deus, que dá vida aos mortos e chama à existência o que não existe, que Abraão depositou sua confiança.


Contra toda esperança

O Senhor chamou Abraão e lhe fez uma promessa:

“Eu o abençoarei […] e você será uma bênção.”

Prometeu-lhe também uma descendência, quando as circunstâncias humanas já não ofereciam esperança de que isso acontecesse.

Abraão estava envelhecido. Sara era estéril.

Mas Paulo escreveu sobre ele:

“Abraão, contra toda esperança, em esperança creu.”

Abraão não ignorou as condições do próprio corpo nem a situação de Sara.

Ele reconheceu a realidade, mas continuou confiando naquele que havia feito a promessa.

Paulo explica que Abraão creu em Deus, aquele que dá vida aos mortos e chama à existência coisas que não existem.

Como no vale dos ossos secos, a esperança não estava naquilo que o homem podia fazer, nem naquilo que conseguia enxergar.

Estava naquele que havia feito a promessa.

E a bênção não terminaria em Abraão.

Paulo explica que, por meio de Cristo Jesus, a bênção prometida a Abraão chegou também aos outros povos, para que recebêssemos, pela fé, o Espírito prometido.

E o que esse Espírito realiza naqueles que recebem a promessa?


O Filho e os muitos irmãos

João apresenta Jesus como o Filho unigênito, destacando sua condição singular.

Paulo apresenta Jesus Cristo como o primogênito entre muitos irmãos.

E explica que somos chamados a ser conformados à imagem do Filho.

Em outra carta, expressa seu desejo:

“Até que Cristo seja formado em vocês.”

Não se trata apenas de conhecer informações sobre Deus.

Trata-se de uma transformação da nossa própria vida.

Jesus disse:

“Eu sou a luz do mundo.”

E também disse aos seus discípulos:

“Vocês são a luz do mundo.”

A luz não tem sua origem em nós. Mas somos chamados a manifestá-la.

E Paulo revela algo extraordinário ao falar do mistério que Deus quis tornar conhecido entre os povos:

“Cristo em vocês, a esperança da glória.”

A esperança não está em nos tornarmos suficientes por nós mesmos.

Está na vida de Cristo sendo formada e manifestada em nós, pela ação do Espírito.

E, se é o Espírito quem vivifica, nossa primeira atitude é ouvir.


Ouvir, despertar e caminhar

As Escrituras nos convidam, repetidamente, a ouvir.

“Quem tem ouvidos para ouvir, ouça.”

E também:

“Quem tem ouvidos, ouça o que o Espírito diz.”

Não basta ouvir sons com os ouvidos. Somos convidados a compreender com o coração.

E aquilo que começamos a compreender pode transformar nossa maneira de viver.

Por isso encontramos outro chamado:

“Desperta, você que dorme, levante-se dentre os mortos, e Cristo o iluminará.”

Despertar. Levantar. Caminhar.

Mas como caminhar sem conhecer toda a estrada?

“Tua palavra é lâmpada para os meus pés e luz para o meu caminho.”

Uma lâmpada não ilumina necessariamente toda a estrada. Mas oferece luz para o próximo passo.

Assim vamos conhecendo e prosseguindo em conhecer.

Aprendemos a ouvir antes de falar.

Aprendemos a confiar mesmo quando não compreendemos tudo.

E começamos a oferecer não apenas nossas palavras, mas o próprio corpo, a própria vida, como sacrifício vivo a Deus.

A Palavra que ouvimos começa a encontrar expressão naquilo que fazemos.

E, enquanto caminhamos, nossa compreensão também pode se aprofundar.


As águas que se aprofundam

Em outra visão, Ezequiel contempla um rio que sai do santuário.

Primeiro, as águas chegam aos tornozelos.

Depois, aos joelhos.

Em seguida, à cintura.

Finalmente, tornam-se profundas demais para serem atravessadas andando.

A visão anuncia águas que levam vida e restauração por onde passam.

Mas também podemos contemplar esse aprofundamento como uma imagem da nossa caminhada.

No começo, conhecemos pouco.

À medida que caminhamos, percebemos novas relações entre aquilo que ouvimos e aquilo que vivemos.

Nossa compreensão se aprofunda.

Até que começamos a reconhecer que o conhecimento, por mais precioso que seja, não nos permite controlar todas as coisas.

“Confie no Senhor de todo o seu coração e não se apoie em seu próprio entendimento.”

O rio é maior do que nós.

E há algo especialmente bonito naquela visão: suas águas não permanecem paradas. Elas seguem adiante e levam vida por onde passam.

Jesus também falou de rios de água viva que fluiriam do interior daqueles que nele cressem.

João explica que ele estava falando do Espírito.

A vida que recebemos não foi destinada a terminar em nós.

O rio se aprofunda. E suas águas seguem adiante.

Assim como as águas do rio seguem adiante levando vida por onde passam, também somos enviados ao mundo.


Enviados para amar

Jesus disse ao Pai:

“Assim como me enviaste ao mundo, eu os enviei ao mundo.”

E sua oração não ficou restrita àqueles discípulos.

Ele também orou por aqueles que viriam a crer por intermédio da palavra deles.

O que significa sermos enviados?

Cristo significa Ungido. Messias também significa Ungido.

Jesus declarou que o Espírito do Senhor estava sobre ele, que o havia ungido para anunciar boas-novas e o havia enviado.

Unção e envio estão profundamente relacionados, embora não signifiquem exatamente a mesma coisa.

Depois da ressurreição, Jesus disse novamente aos discípulos:

“Assim como o Pai me enviou, eu os envio.”

E soprou sobre eles, dizendo:

“Recebam o Espírito Santo.”

Paulo também afirma que Deus nos ungiu, nos selou e colocou o Espírito em nossos corações.

Isso não significa que nos tornamos o Messias. Mas que, pertencendo a Cristo, participamos de sua vida e somos chamados a cooperar com sua obra.

Podemos voltar ao vale dos ossos secos.

Ezequiel anunciou a Palavra. Mas foi o Espírito que deu vida.

Paulo plantou. Apolo regou. Mas Deus deu o crescimento.

Jesus chamou Lázaro para fora do sepulcro. E ordenou às pessoas que retirassem suas ataduras e o deixassem ir.

Em todos esses episódios, encontramos pessoas participando de uma obra cuja vida e poder não procedem delas.

Não somos a fonte da vida.

Mas podemos anunciar a Palavra, oferecer nossas mãos, acolher, servir e ajudar o outro a levantar-se.


Um novo mandamento

E Jesus nos deu um novo mandamento:

“Amem-se uns aos outros. Como eu os amei, vocês devem amar-se uns aos outros.”

Amar como Jesus amou envolve aprender a renunciar à pretensão de viver somente para nós mesmos.

Ele nos chamou a negar a nós mesmos, tomar nossa cruz e segui-lo.

Paulo nos convida a oferecer nosso próprio corpo como sacrifício vivo.

Assim, a fé começa a se manifestar pelo amor.

O outro pode ser alcançado por essa bondade.

Não porque sejamos capazes de produzir a vida nele, mas porque nos colocamos à disposição daquele que vivifica.

Não fomos enviados para condenar os ossos secos. Fomos chamados a anunciar a esperança da vida.

E é justamente nessa vida de fé e amor que começamos a compreender o chamado de Jesus para buscar primeiro o Reino de Deus e sua justiça.


O Reino e o descanso

Jesus nos ensinou:

“Busquem, pois, em primeiro lugar o Reino de Deus e a sua justiça.”

E Paulo escreveu:

“Pois o Reino de Deus não é comida nem bebida, mas justiça, paz e alegria no Espírito Santo.”

A caminhada vai nos ensinando que a justiça de Deus não é uma conquista da nossa autossuficiência.

É pela fé que recebemos e aprendemos a viver essa justiça, que se manifesta no amor.

E, enquanto caminhamos, encontramos outro convite de Jesus:

“Venham a mim, todos os que estão cansados e sobrecarregados, e eu lhes darei descanso.”

Jesus não nos chama simplesmente a abandonar toda atividade.

Ele nos convida a tomar seu jugo e aprender dele, que é manso e humilde de coração.

Mas as Escrituras também dizem:

“Esforcemo-nos, pois, por entrar nesse descanso.”

Como alguém pode se esforçar para descansar?

O chamado em Hebreus está relacionado à perseverança na fé e à obediência, em contraste com a incredulidade daqueles que não entraram no descanso prometido.

Não se trata de produzir o descanso por nossa própria capacidade.

Trata-se de perseverar na confiança naquele que o oferece.

O descanso não é o fim da caminhada. É uma nova maneira de caminhar.

Continuamos trabalhando, servindo e amando.

Mas já não precisamos viver como se tudo dependesse de nós.

“Se não for o Senhor o construtor da casa, será inútil trabalhar na construção.”

Aprendemos a confiar.

E nessa confiança podemos experimentar, desde agora, a justiça, a paz e a alegria no Espírito Santo.

Mesmo quando, diante dos nossos olhos, não conseguimos enxergar esperança alguma.

Como Abraão, somos convidados a confiar naquele que dá vida aos mortos.

Ainda não compreendemos tudo.
Ainda enfrentamos dificuldades.
Ainda caminhamos.

Mas o descanso já pode fazer parte da caminhada.


Até que não haja mais noite

As Escrituras apresentam a história de muitos homens, de muitos povos e de muitas gerações.

Encontramos fé e incredulidade, obediência e desobediência, amor e violência, esperança e desespero.

Encontramos o homem tentando viver por sua própria capacidade.

E encontramos, repetidamente, a misericórdia de Deus.

Tudo o que foi escrito no passado foi escrito para nosso ensino, para que, pela perseverança e pela consolação das Escrituras, tenhamos esperança.

A Bíblia começa falando da luz.

E termina anunciando:

“Não haverá mais noite.”

Essa promessa aponta para uma plenitude que ainda aguardamos.

Mas a luz já brilha.

O Espírito já vivifica.

E o descanso oferecido por Jesus já pode ser experimentado por aqueles que creem.

Entre o vale dos ossos secos e a promessa de que não haverá mais noite, somos convidados a ouvir, despertar, levantar e caminhar.

A conhecer e prosseguir em conhecer.

A oferecer nossa vida em amor.

A buscar primeiro o Reino de Deus e sua justiça.

E a confiar naquele que nos conduz, mesmo quando não conseguimos enxergar toda a estrada.

Porque o caminho do justo é como a luz da aurora, que brilha mais e mais até ser dia perfeito.

E aquele que começou contemplando um vale de ossos sequíssimos pode descobrir que sua esperança não estava na capacidade daqueles ossos de viver.

Estava naquele que dá a vida.

Cristo em nós, a esperança da glória.

Para a glória de Deus Pai.

A luz continua brilhando. O Espírito continua vivificando. E a esperança permanece.

Até que não haja mais noite.

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Airton Humber

Alguém comum, que caminhou por muitas veredas e foi encontrando, aos poucos, uma luz na Palavra.