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O Medo — Esse Desconhecido

Quanto das nossas decisões é governado pelo medo? Uma reflexão sobre nossas certezas, a verdade, a fé e a liberdade de andar pelo Espírito.

Airton Humber · 27 de outubro de 2026 · 4 min de leitura

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Luz discreta surgindo em meio à escuridão, representando a confiança da fé diante do medo e do desconhecido.

Conhecemos tão pouco sobre nós mesmos. E, ainda assim, temos tanta certeza de tantas coisas.

O medo faz parte da nossa vida. Temos medo de perder, de sofrer, de errar, de sermos enganados e de enfrentar aquilo que desconhecemos.

Mas existe uma pergunta que raramente fazemos:

Quanto das nossas decisões é governado por medos que nem sequer reconhecemos?

Às vezes, aquilo que chamamos de prudência é medo. Aquilo que defendemos como convicção pode ser uma tentativa de proteger nossas certezas. E aquilo que julgamos ser justiça pode estar contaminado pelo receio de perder alguma coisa.

O medo pode nos proteger de perigos reais. Mas também pode nos aprisionar em perigos imaginados.

E nem sempre conseguimos distinguir uma coisa da outra.


O medo e as nossas certezas

As eleições são uma oportunidade para observar esse fenômeno.

Em períodos eleitorais, surgem advertências sobre o que acontecerá se determinado candidato vencer. Pessoas que desejam sinceramente o bem de seu país passam a temer umas às outras.

O medo pode influenciar tanto quem governa quanto quem se opõe ao governo. Pode alimentar a defesa de um lado e a rejeição do outro.

E, quando isso acontece, corremos o risco de deixar de examinar os fatos para simplesmente defender aquilo em que já acreditamos.

Mas essa dificuldade não existe apenas na política.

Também construímos certezas sobre nossa família, nossos amigos, nossa religião e sobre nós mesmos.

Nem tudo o que acreditamos é verdadeiro. E nem tudo o que é verdadeiro nós acreditamos.

Talvez tenhamos mais medo de descobrir que estávamos enganados do que de continuar vivendo no engano.


O que realmente conhecemos?

Não conhecemos plenamente as coisas invisíveis.

Não conhecemos plenamente a Deus. Não compreendemos inteiramente a ação do maligno. E, por mais surpreendente que pareça, também não conhecemos plenamente a nós mesmos.

As Escrituras nos mostram que o Espírito sonda todas as coisas, até mesmo as profundezas de Deus, e que é pelo Espírito que recebemos aquilo que Deus nos revela.

Por isso, reconhecer os limites do nosso conhecimento não significa desistir da verdade.

Pode ser justamente o começo de nossa disposição para conhecê-la.

Quando Jesus encontrou o homem que havia nascido cego, falou sobre aqueles que reconhecem sua cegueira e aqueles que afirmam enxergar.

O problema não é apenas não enxergar. É acreditar que enxergamos quando ainda estamos cegos.

E como é difícil reconhecer isso quando nossas convicções se tornaram parte da nossa identidade!


O medo e o temor

Quando o povo de Israel ouviu a voz de Deus no Sinai, ficou aterrorizado.

Moisés lhes disse que não tivessem medo, mas que o temor de Deus estivesse diante deles.

À primeira vista, parece uma contradição.

Mas há uma diferença entre o medo que nos faz fugir e o temor que nos conduz à sabedoria.

O medo pode nos levar a esconder, acusar, atacar ou buscar proteção em alguém que prometa controlar o que nos ameaça.

O temor do Senhor, por outro lado, nos convida a reconhecer quem é Deus — e quem somos nós.

Desde o jardim do Éden, encontramos o ser humano escondendo-se, temendo e procurando transferir sua responsabilidade.

Talvez ainda façamos isso, de muitas maneiras.


Não pela força, mas pelo Espírito

Deus declarou a Zorobabel:

“Não por força nem por violência, mas pelo meu Espírito.”

A força pode impor comportamentos. O medo pode produzir obediência. Mas nenhum deles, por si só, transforma o coração humano.

Moisés, reconhecido como o homem mais manso da terra, também experimentou os limites de sua própria reação.

Nas águas de Meribá, irritou-se, falou precipitadamente e agiu de maneira diferente daquela que Deus lhe havia orientado.

A mansidão não o impediu de tropeçar.

E Tiago nos lembra que aquele que não tropeça no falar é maduro, capaz de refrear também todo o corpo.

Paulo, por sua vez, apresenta a mansidão e o domínio próprio entre as manifestações do fruto do Espírito.

A verdadeira liberdade não consiste em conseguir controlar os outros, mas em não ser dominado pelas nossas próprias reações.

E essa transformação não nasce simplesmente da força da vontade.

É fruto da ação do Espírito em nós.


Andar sem saber para onde vamos

Abraão ouviu o chamado de Deus e partiu, sem saber para onde estava indo.

Creu, e isso lhe foi imputado como justiça.

O justo viverá pela fé.

Justificados mediante a fé, temos paz com Deus.

A fé não exige que conheçamos antecipadamente todo o caminho. Ela nos permite caminhar confiando naquele que nos conduz.

Jesus disse a Nicodemos que o vento sopra onde quer. Podemos ouvi-lo, mas não sabemos de onde vem nem para onde vai. Assim acontece com os nascidos do Espírito.

Isso não significa abandonar o discernimento ou seguir qualquer impulso que pareça espiritual.

Significa aprender a ouvir, examinar e responder, mesmo quando a direção recebida contraria nossos desejos e nossas certezas.

O medo quer garantias. A fé nos convida à confiança.


A liberdade de andar pelo Espírito

Jesus nos ensinou a buscar primeiro o Reino de Deus e sua justiça.

E Paulo escreveu que o Reino de Deus não é comida nem bebida, mas justiça, paz e alegria no Espírito Santo.

A fé atua pelo amor.

E o fruto do Espírito começa com o amor, manifestando-se também na paz, na mansidão e no domínio próprio.

É um caminho que não termina em nossas próprias necessidades.

O amor nos conduz ao outro.

Talvez por isso Jesus tenha ensinado a amar até mesmo os inimigos. Não porque o mal deixe de ser mal, mas porque não precisamos permitir que o mal determine aquilo que nos tornamos.

João escreveu:

“O perfeito amor expulsa o medo.”

Não significa que jamais sentiremos medo. Significa que podemos deixar de ser governados por ele.

Não conhecemos o amanhã. Não conhecemos plenamente a nós mesmos. E não podemos controlar o vento.

Mas podemos aprender a ouvir.

“Se vivemos pelo Espírito, andemos também pelo Espírito.”

Talvez a liberdade comece quando deixamos de exigir que Deus confirme nossos caminhos e nos dispomos a caminhar por onde o Espírito nos conduz.

Porque a fé vem pelo ouvir.

Quem tem ouvidos para ouvir, ouça.


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Airton Humber

Alguém comum, que caminhou por muitas veredas e foi encontrando, aos poucos, uma luz na Palavra.