Aquilo que acreditamos pode mudar a maneira como enxergamos a realidade.
O que é uma narrativa?
Todos nós procuramos compreender o mundo.
Para isso, organizamos acontecimentos, experiências, informações e lembranças em histórias que dão sentido àquilo que vivemos.
Essas histórias são narrativas.
Elas podem nascer da família, da religião, da política, da cultura e das nossas experiências pessoais.
As narrativas não são necessariamente falsas. Muitas contêm verdades importantes. Outras misturam fatos, interpretações, desejos e equívocos.
O problema não está simplesmente em possuir uma narrativa.
Está em não perceber o poder que ela exerce sobre nós.
Quando a narrativa governa a razão
Costumamos imaginar que primeiro examinamos os fatos e depois chegamos às nossas conclusões.
Mas nem sempre acontece assim.
Muitas vezes, já estamos convencidos de alguma coisa antes de examinar os fatos. Então, nossa razão começa a trabalhar para defender aquilo em que acreditamos.
Passamos a valorizar as informações que confirmam nossas convicções e a desconfiar daquelas que as contrariam.
Podemos enxergar aquilo que não existe e deixar de enxergar aquilo que está diante de nós.
E quanto mais sinceramente acreditamos estar certos, mais difícil pode ser perceber o engano.
Isso acontece com pessoas instruídas e simples, religiosas e não religiosas, conservadoras e progressistas.
Acontece também comigo.
Quando deixamos de enxergar o outro
As narrativas não influenciam apenas aquilo que pensamos.
Elas também podem influenciar nossos sentimentos.
Podemos aprender a admirar alguém que nunca conhecemos. E podemos aprender a odiar alguém com quem jamais conversamos.
Uma pessoa pode ser generosa, carinhosa e misericordiosa com sua família e, ao mesmo tempo, considerar justificável o sofrimento daqueles que aprendeu a chamar de inimigos.
A narrativa pode estabelecer fronteiras para a nossa compaixão.
O outro deixa de ser uma pessoa e passa a representar uma ameaça, uma ideologia, um grupo.
E, assim, podemos chegar a acreditar que estamos fazendo o bem justamente quando causamos sofrimento.
O que eu gostaria que fosse
Existe outro aspecto importante.
Nem sempre queremos conhecer a realidade como ela é.
Muitas vezes, queremos que ela corresponda às nossas expectativas.
Desejamos que determinada pessoa esteja certa, que nossa religião não tenha equívocos, que nossas escolhas tenham sido corretas, que os acontecimentos confirmem aquilo em que acreditamos.
Quando os fatos contrariam esses desejos, podemos resistir a reconhecê-los.
Mas a realidade não se modifica simplesmente porque desejamos que seja diferente.
Reconhecer a realidade não significa gostar dela.
Podemos reconhecer uma injustiça e trabalhar para corrigi-la. Podemos reconhecer um sofrimento e procurar aliviá-lo.
O que não podemos é transformar nossos desejos em fatos.
A pessoa que é e a pessoa que eu gostaria que fosse
Muitos conflitos entre pessoas próximas nascem de uma diferença muito simples: aquilo que o outro é e aquilo que gostaríamos que ele fosse.
Esperamos que nosso cônjuge pense como nós, que nossos amigos tenham nossas prioridades, que as pessoas ajam como consideramos correto.
Quando isso não acontece, ficamos frustrados.
Mas há algo ainda mais delicado: também construímos narrativas sobre as pessoas que amamos.
Às vezes, uma atitude isolada se transforma numa história inteira:
“Ele nunca me escuta.”
“Ela sempre quer ter razão.”
“Meu amigo não se importa comigo.”
Depois de formada, essa narrativa pode influenciar a maneira como interpretamos cada novo comportamento do outro. Passamos a encontrar confirmações daquilo que já acreditávamos.
Assim, muitas vezes, não discutimos apenas por causa do que aconteceu. Discutimos também com a história que construímos a respeito daquela pessoa.
E a pessoa real pode ser muito diferente da imagem que formamos dela.
Aceitar alguém como é não significa aprovar tudo o que faz. Significa reconhecer a pessoa real, em vez de exigir que corresponda às nossas expectativas.
Podemos conversar, discordar, estabelecer limites e até nos afastar quando necessário, sem transformar nossas diferenças em hostilidade.
Talvez muitas discussões perdessem sua razão de existir se conseguíssemos distinguir aquilo que o outro realmente fez daquilo que passamos a acreditar sobre ele.
E, antes de tentar mudar alguém, poderíamos nos perguntar:
Estou enxergando essa pessoa como ela é ou como a narrativa que construí me faz enxergá-la?
Amar não é o mesmo que gostar
Há uma diferença importante entre gostar e amar.
Gostar envolve nossos sentimentos, nossas afinidades e preferências.
Amar pode começar antes disso.
Podemos decidir agir com bondade em favor de alguém de quem não gostamos.
Podemos discordar de suas ideias, reprovar suas atitudes e ainda assim desejar o seu bem.
Quando Jesus disse “Amem os seus inimigos”, apresentou uma atitude que não depende da simpatia.
O amor não exige que deixemos de reconhecer o mal.
Exige que não deixemos de reconhecer a pessoa.
Talvez essa seja uma das maneiras de impedir que nossas narrativas determinem os limites da nossa misericórdia.
Reconhecer sem compreender tudo
Há acontecimentos que contrariam profundamente nossas expectativas.
Podemos sofrer, lamentar, questionar e não encontrar explicações.
Jó perdeu seus bens, seus filhos e sua saúde. Não compreendeu tudo o que estava acontecendo. Sofreu, protestou e fez perguntas.
Mas, diante da perda, também pronunciou:
“O Senhor o deu, o Senhor o tomou; bendito seja o nome do Senhor.”
Reconhecer a realidade não significa aprovar tudo o que acontece.
E confiar em Deus não significa possuir uma explicação para tudo.
Talvez o descanso comece quando deixamos de exigir que a realidade corresponda à nossa vontade para que possamos viver, amar e adorar.
E quanto às minhas próprias narrativas?
É fácil reconhecer o poder das narrativas sobre aqueles de quem discordamos.
Muito mais difícil é reconhecer esse mesmo poder sobre nós.
Por isso, antes de perguntar por que alguém acredita em determinada coisa, podemos examinar nossas próprias convicções:
Estou reconhecendo os fatos ou procurando confirmar aquilo que desejo acreditar?
Consigo ouvir alguém que discorda de mim sem transformá-lo em inimigo?
Estou disposto a mudar de compreensão quando percebo que estava enganado?
Minha maneira de pensar está ampliando ou diminuindo minha capacidade de amar?
Essas perguntas não garantem que estaremos certos.
Mas podem nos ajudar a reconhecer nossas limitações.
E talvez essa seja uma das primeiras manifestações da sabedoria: compreender que também podemos estar enganados.
Paulo chegou a reconhecer em si mesmo uma contradição profunda: não fazia o bem que desejava, mas praticava o mal que não queria.
Reconhecer o bem não significa que já sejamos capazes de praticá-lo.
Talvez por isso seja tão importante examinar nossas próprias atitudes antes de julgar as atitudes dos outros.
Não precisamos estar certos sobre tudo para agir com amor.
Escrevo estas palavras não porque esteja livre da influência das narrativas, mas porque reconheço o quanto elas também podem influenciar minha maneira de pensar, sentir e agir.
Não desejo encontrar os equívocos dos outros.
Desejo aprender a reconhecer os meus, para enxergar melhor a realidade e amar com mais liberdade.