Das Cruzadas ao nazismo: períodos sombrios da história cristã. E hoje?
Introdução
Hitler era cristão?
Hitler nasceu e foi batizado católico. Em algumas ocasiões, declarou-se cristão. Entretanto, sua relação com o cristianismo tradicional era profundamente contraditória.
Quando chegou ao poder, em 1933, aproximadamente 95% da população alemã pertencia às igrejas protestantes ou católicas.
Como uma sociedade tão profundamente identificada com o cristianismo pôde apoiar ou tolerar tantas atrocidades?
A história registra outros períodos sombrios em que pessoas e instituições cometeram violências em nome de Deus, muitas vezes convencidas de que estavam defendendo a verdadeira fé.
Mas será que nós também podemos estar tão convencidos de nossas crenças que deixamos de perceber nossos próprios enganos?
Essa é uma das questões que exploramos no artigo O Poder das Narrativas: como aquilo em que acreditamos pode influenciar nossa percepção da realidade e até nos levar a justificar aquilo que condenaríamos em outras circunstâncias.
Para refletir sobre isso, vamos percorrer brevemente a história bíblica, as advertências de Jesus e alguns dos acontecimentos mais sombrios da história cristã.
Neste artigo:
- Desde o princípio
- O alerta de Jesus
- A história da Igreja Cristã
- Hitler e a Alemanha cristã
- E nós, hoje?
- A luz que brilha no coração
Desde o princípio
No princípio, Deus criou os céus e a terra.
E disse Deus: “Haja luz.” E houve luz.
Os luminares, entretanto, aparecem somente no quarto dia.
Deus criou o homem à sua imagem e semelhança. Mas Adão desobedeceu e, mais tarde, gerou um filho à sua própria imagem e semelhança.
A maldade humana se multiplicou. Deus se entristeceu com aquilo que o homem havia se tornado.
Noé encontrou graça diante de Deus. Veio o dilúvio, e aquela geração foi destruída.
Mas, logo depois, Deus reconheceu que a inclinação do coração humano continuava sendo má desde a juventude.
O dilúvio havia passado. A condição humana permanecia.
Deus chamou Abraão, prometendo abençoá-lo e fazer dele uma bênção para todas as famílias da terra.
Vieram Ismael e Isaque, Esaú e Jacó, os doze filhos de Israel.
José foi vendido pelos próprios irmãos, mas Deus estava com ele. No Egito, tornou-se uma bênção e preservou muitas vidas.
Depois, os descendentes de Israel foram escravizados.
Deus chamou Moisés para libertá-los. O povo testemunhou sinais e maravilhas, mas, diante da terra prometida, teve medo e não confiou.
Vieram quarenta anos no deserto.
Josué conduziu o povo à terra prometida.
Vieram os juízes, com suas virtudes e suas falhas.
O povo exigiu um rei.
Vieram Saul, Davi e Salomão. Homens que receberam grandes responsabilidades e bênçãos, mas também tropeçaram.
O reino se dividiu.
Seguiram-se disputas, guerras, idolatria, injustiças, destruição e exílios.
Os profetas advertiram repetidamente o povo.
E, sob o domínio do Império Romano, nasceu Jesus.
Ao longo dessa história, o povo recebeu promessas, leis, orientações e advertências. Mas conhecer aquilo que Deus havia dito nem sempre significou praticar sua vontade.
O alerta de Jesus
Jesus anunciou a chegada do Reino de Deus, realizou sinais e maravilhas e ensinou sobre o amor, a misericórdia, a justiça e a vida no Espírito.
Mas também denunciou um perigo profundo:
“Este povo me honra com os lábios, mas o seu coração está longe de mim.”
Séculos antes, Isaías já havia denunciado uma religiosidade baseada em mandamentos humanos aprendidos maquinalmente.
Jesus retomou essa advertência:
“Vocês anulam a palavra de Deus por meio da tradição que vocês mesmos transmitiram.”
E fez uma declaração ainda mais perturbadora:
“Vem a hora em que todo o que os matar pensará que está prestando culto a Deus.”
Pessoas convencidas de que estavam servindo a Deus poderiam chegar a matar em nome dessa convicção.
Jesus foi rejeitado, condenado e crucificado.
Deus o ressuscitou e o fez Senhor e Cristo.
Mas a advertência sobre o perigo das tradições humanas continuaria relevante para as gerações seguintes.
A história da Igreja Cristã
Depois dos apóstolos, as comunidades se multiplicaram.
Ao longo dos séculos, os escritos que compõem o Novo Testamento foram reconhecidos e reunidos no cânon bíblico. Também foram formuladas doutrinas, estabelecidas tradições e organizadas estruturas religiosas.
Algumas formulações procuravam preservar os ensinamentos recebidos. Outras foram objeto de disputas e controvérsias.
No século IV, o cristianismo passou de religião frequentemente perseguida a religião favorecida pelo poder imperial e, posteriormente, oficial do Império Romano.
Com o passar dos séculos, autoridades religiosas e políticas se aproximaram cada vez mais.
E a história registra acontecimentos profundamente sombrios.
As Cruzadas. Guerras promovidas em nome da fé, acompanhadas de massacres e perseguições.
As Inquisições. Tribunais que perseguiram pessoas acusadas de heresia, recorrendo também à coerção e à tortura.
A colonização e a escravidão. A exploração e a escravização de seres humanos foram, em diversos momentos, justificadas por argumentos religiosos e apoiadas por instituições e indivíduos cristãos.
As guerras religiosas. Católicos e protestantes combateram uns aos outros em conflitos que também envolviam poder político e interesses territoriais.
A perseguição às pessoas acusadas de bruxaria. Milhares foram executadas em sociedades cristãs, frequentemente por tribunais civis.
Houve também pessoas e comunidades cristãs que resistiram à violência, defenderam os perseguidos e se opuseram à escravidão.
Mas isso não elimina os acontecimentos registrados.
Em diferentes épocas, convicções religiosas foram utilizadas para justificar perseguições e violências. Nem sempre aqueles que as praticavam reconheciam a contradição entre seus atos e os ensinamentos que professavam.
E a história ainda não havia chegado ao século XX.
Hitler e a Alemanha cristã
Voltemos à pergunta que deu início a esta reflexão.
Hitler era cristão?
Por formação e por algumas de suas declarações públicas, Hitler se identificou com o cristianismo. Entretanto, suas convicções e suas ações entraram em profundo conflito com os ensinamentos de Jesus.
Em 1933, aproximadamente 95% da população alemã pertencia às igrejas protestantes ou católicas.
Uma sociedade esmagadoramente identificada com o cristianismo assistiu à ascensão do nazismo.
Muitos cristãos apoiaram o regime. Outros se acomodaram ou permaneceram em silêncio. Houve também aqueles que resistiram, protegeram perseguidos e até perderam a própria vida.
O regime nazista promoveu uma guerra devastadora e o assassinato sistemático de seis milhões de judeus, além da perseguição e morte de milhões de outras vítimas.
O apoio ao nazismo não pode ser atribuído indistintamente a todos os alemães ou a todos os cristãos.
Mas a participação, a colaboração e o silêncio de numerosos cristãos fazem parte dessa história.
O nazismo não foi simplesmente uma expressão do cristianismo. Envolveu uma ideologia racial, nacionalista e totalitária. Ainda assim, encontrou apoio e colaboração em uma sociedade profundamente marcada pela tradição cristã.
E aqui surge uma questão que atravessa toda esta reflexão:
Como podemos estar tão convencidos de nossas crenças e, ao mesmo tempo, tão distantes daquilo que afirmamos acreditar?
E voltamos às palavras de Jesus:
“Vem a hora em que todo o que os matar pensará que está prestando culto a Deus.”
E nós, hoje?
No Brasil, encontramos cristãos conservadores e cristãos progressistas envolvidos em disputas políticas e religiosas.
Nas redes sociais, pessoas que professam a mesma fé frequentemente trocam acusações, insultos e ofensas.
Não estamos diante dos mesmos acontecimentos nem da mesma gravidade dos episódios históricos anteriores.
Mas podemos observar como convicções religiosas e políticas continuam influenciando profundamente as relações humanas.
As narrativas que recebemos e construímos podem fortalecer nossas convicções e, ao mesmo tempo, dificultar o reconhecimento dos nossos próprios enganos.
Podemos conhecer profundamente os argumentos que defendem nossas crenças e dedicar muito menos atenção ao exame de seus fundamentos.
E quanto mais convencidos estamos de possuir a verdade, mais difícil pode ser reconhecer aquilo que ainda não compreendemos.
Isso não significa que toda convicção seja um engano. Mas nenhuma convicção nos dispensa de ouvir, examinar e reconhecer a realidade.
E permanece a advertência:
“Este povo me honra com os lábios, mas o seu coração está longe de mim.”
A luz que brilha no coração
Voltemos ao princípio.
“Haja luz.” E houve luz.
João anuncia que, na Palavra, estava a vida, e a vida era a luz dos homens.
Jesus declara:
“Eu sou a luz do mundo. Quem me segue não andará em trevas, mas terá a luz da vida.”
E Paulo estabelece uma conexão extraordinária com a criação:
Deus, que ordenou que das trevas resplandecesse a luz, é o mesmo que brilhou em nossos corações, para iluminação do conhecimento da sua glória na face de Jesus Cristo.
A luz agora brilha no coração humano.
A fé vem pelo ouvir.
A justiça de Deus se revela de fé em fé.
E a fé é a certeza daquilo que esperamos e a prova das coisas que não vemos.
O invisível se torna conhecido pela fé e se manifesta em nossa vida.
Paulo anuncia o mistério que esteve oculto durante gerações:
Cristo em nós, a esperança da glória.
E declara seu esforço:
“Até que Cristo seja formado em vocês.”
Não se trata simplesmente de conhecer ensinamentos, repetir doutrinas ou defender tradições.
Trata-se da vida de Deus manifestando-se no ser humano.
E, depois de toda essa história, desde a criação até os nossos dias, permanece a mesma chamada:
“Quem tem ouvidos, ouça o que o Espírito diz às igrejas.”